quinta-feira, 19 de abril de 2018

Teatro e literatura: obras de resistência pós-64

 “Um teatro, uma literatura, uma expressão artística que não fale de seu próprio tempo não tem relevância.” (Dario Fo) Abajur lilás Muitos já sabem que aquele amontoado de valores morais que cada um de nós defende incisivamente, muito por acreditar que são “naturais” e constitutivos de certa “essência humana”, não passa de um conjunto de códigos sociais construídos ao longo da nossa formação enquanto sujeitos. Desde a filosofia grega, os sofistas já consideravam que os princípios morais eram resultado das convenções humanas. Desse modo, é possível depreender que já há muito tempo existe a rejeição aos conceitos de moral atrelados a fundamentos religiosos, e tidos como verdade absoluta e inquestionável. No entanto, é sabido que a fatura deixada por determinadas épocas, como a visão teocêntrica do mundo, defendida na idade média, por exemplo, ainda circula entre nós, sendo responsável por impregnar nas concepções de moral, juízos de certo e de errado, de bem e de mal. As discussões relacionadas à moralidade humana são um terreno espinhoso e tortuoso pra se debater e refletir. Afinal, por mais que se discuta o assunto, e que sejam apresentadas as mais diferentes teorias acerca da questão, que demonstram que tais valores não passam de meras convenções, até mesmo aqueles que têm consciência dessa realidade, não estão isentos de, em algum momento, se depararem com alguma situação que considerem imoral e que, para eles, ferem os conceitos éticos de uma determinada época ou cultura. De todo modo, a moral é constitutiva da sociedade, responsável por reger a vida das pessoas. Bem, não é a minha intenção, aqui, falar sobre as origens e a estrutura da moralidade humana. Sobre esse assunto, grandes pensadores e filósofos se encarregaram de tratar, e não estou eu, acredito, apto (nem interessado) em escrutinar. No entanto, uso dessa reflexão sobre a moral para me amparar sobre a reflexão a respeito de O abajur lilás. Na década de 70, período em que o Brasil sentiu com mais intensidade a truculência do regime que havia se instaurado em 1964, a produção cultural, em “um campo de certa hegemonia esquerdista” (SCHUARZ,1969) era vista como uma manifestação de resistência à ditadura, e, por esse motivo, muitas produções teatrais foram proibidas sob o argumento  de que atentavam contra a ordem e os bons costumes. Uma dessas peças foi O abajur lilás, escrita por Plínio Marcos de Barros, censurada duas vezes, e que só foi aos palcos em 1980, onze anos após a sua criação. Vale saber que, nesse período, o regime militar apresentava marcas de esgotamento. A peça Um gigolô homossexual, uma mãe que se prostitui para dar ao filho melhores condições de vida, uma prostituta, que, na disputa pelo poder, e na irracionalidade, desafia o patrão, outra prostituta que “entrou nessa porque quis” e um sádico torturador são as cinco personagens que compõem a peça de Plínio Marcos. Giro é o proprietário de um prostíbulo onde trabalham Dilma, Célia e Leninha. Através da imposição financeira e da força, ele as controla, e as mantém num jogo em que fica evidente a supremacia da lei do mais forte. O gigolô tem como ajudante, Osvaldo, que com mãos de ferro, é o responsável por garantir a ordem e a segurança do local. O ponto de tensão no enredo de Plínio Marcos se dá quando um abajur é encontrado quebrado e Giro passa a não medir esforços para descobrir quem é a responsável pelo prejuízo, e poder castigá-la. Na verdade, ele sabe qual das prostitutas quebrou o abajur, mas o que fica claro é que o seu desejo é que uma delas chegue à delação e entregue a sua companheira de trabalho, para, desse modo, poder  desarticular qualquer possibilidade de aliança entre elas. O desfecho é trágico! A peça pode ser lida como uma metáfora do Brasil, que comparado a um prostíbulo, tem Giro como a força dominante, Osvaldo, submisso a Giro, é o meio pelo qual essa força se manifesta mais intensamente, e as três prostitutas, segundo os críticos da época, seriam o povo, sem reação e impotente diante da situação a qual estavam submetidos. No entanto, todos eles são conscientes de que ocupam uma faixa marginalizada da sociedade, afinal, a homossexualidade de Giro o compromete diante dos outros, pois foge aos valores tradicionais e o torna  vulnerável aos mais diversos preconceitos. Ele, embora tenha dinheiro, é o rei de um reino medíocre e decadente, onde se difere das demais personagens somente pelo fator econômico. Essa condição das personagens ilustra pontualmente o que representava o Brasil em um contexto internacional, ou seja, a própria condição dos militares em servirem como instrumento de interesses internacionais. Afinal, seria, no mínimo, pueril acreditar que o que acontecia no país era um processo isolado. A censura e a moral À luz de não tão grande esforço intelectual, o espectador que frequentava o melhor teatro nos chamados anos de chumbo no Brasil, certamente faria uma analogia entre o que estava assistindo e a realidade vivenciada pelo país naquele período. E foi exatamente para cercear tal reflexão que O abajur lilás não saiu ilesa aos órgãos de censura. A moral foi usada como arma para fins políticos, visto que foi o argumento utilizado para censurar a peça. Sob a acusação de que ela se tratava de um atentado à moral e aos bons costumes que Armando Falcão, ministro da justiça, na época, reiterou a sua proibição. O fato é que seria, no mínimo, uma ingenuidade acreditar que os militares estavam preocupados com as palavras de baixo calão, com a pornografia escancarada, com as insinuações indecentes de personagens de condutas vistas como imorais ou com o drama de três prostitutas que representavam uma camada extremamente marginalizada, e quase nem pertencente ao mais baixo degrau da hierarquia econômica e social. Na realidade, pesavam muito mais as menções aos métodos de tortura utilizados para se conseguir confissões ou se ter a delação de companheiros da luta armada. Essas situações tomam contornos delineados no último ato da peça, momento em que as três prostitutas são interrogadas por Giro. Com um alicate, Osvaldo aperta o seio de Dilma até que ela desmaia e Leninha sofre a ameaça de ser colocada em um pau-de-arara, até o momento em que cede ao jogo de Giro e delata Célia, esta que tem o destino mais lancinante dentre as três: é assassinada por Osvaldo, numa cena que estabelece incontestável relação com aqueles que não se conformavam, e, portanto, iam às últimas conseqüências na reação contra o sistema estabelecido. A última fala de Giro mantém estreita relação com a conduta com a qual agiam torturadores. Ela pressupõe, assim como acontece com Célia, o acobertamento e a certeza de impunidade daqueles que foram algozes de muitas vidas ceifadas durante a ditadura: Giro - Dilma, Leninha, não fiquem assim, queridas. Não seja mau, Osvaldo. Solte as meninas. Eu quero ser amigo delas. Sempre quis. Ânimo, gente. Que merda! Que merda! Que merda! Vai, Osvaldo, vai buscar coisas limpas, limpa toda essa droga.[...] Leninha, Dilma, reage, gente! Esqueçam tudo. Vamos se virar. A Célia mereceu. Só aprontava. Vão pra rua. Vão se virar. Na volta, ninguém mais se lembrará dela. Juro. Quando chegarem aqui com fregueses, o Osvaldo já limpou tudo. Vão, meninas. A putaria é assim mesmo. Vamos. Eu vou apressar o Osvaldo. A putaria é assim mesmo. É assim mesmo. É assim mesmo. Que merda! Que merda! Que merda! Acredito que é extremamente delicado olhar para o presente e lançar sobre ele posicionamentos. Podemos nos limitar a externar, apenas, visões de cunho pessoal, além de cair em certos clichês, como, por exemplo, dizer que “hoje no Brasil...”, mas o fato é que essa reflexão sobre o uso da moral para fins meramente políticos na proibição de O abajur lilás pode nos fazer perceber que essa é uma estratégia latente no Brasil. É possível identificar que decisões políticas importantes têm sido norteadas sob esse argumento, ainda que de forma velada. Isso demonstra que há quem ainda procura se assentar sobre uma concepção de moral retrógrada para, pelo que muito nos sugere defender interesses totalmente particulares. O que percebemos é que, de fato, há certa intensificação da defesa desses “valores” por parte de alguns segmentos da sociedade brasileira na conjectura presente, um saudosismo perigoso, numa espécie de retorno ao passado. E o mais interessante é perceber que essas concepções são especialmente fomentadas por indivíduos que demonstram interesse em torcer a história e tratar a brutalidade, a crueldade e os efeitos causados pela ditadura como necessários para salvar a sociedade brasileira de um mal terrível -  o comunismo -  ao qual ela estava ameaçada. O abajur lilás foi importante em sua época por levantar a bandeira contra a censura e a favor da liberdade de expressão. Considero a reflexão realizada nesse trabalho importante para que cada um se mantenha em alerta diante daqueles que insistem em deturpar a realidade e renomear o opróbrio para revolução, utilizando-se da moralidade para se chegar à situação pretendida. REFERÊNCIAS ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 3ª ed. [Trad. Mário da Gama Cury.] Brasília: Universidade de Brasília, 1992. KORTE, Gustavo. Iniciação à Ética. São Paulo: Juarez Oliveira, 1999. MAGALDI, Sábato. Moderna dramaturgia brasileira. São Paulo: Perspectiva, 1998. ______. Panorama do teatro brasileiro. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Global, 1997. em Artes) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1993. MARCOS, Plínio. O abajur lilás: peça em dois atos. São Paulo:Parma,[s.d.] 54p. MARCOS, Plínio. Teatro maldito. São Paulo: Maltese, c1992. 153p. NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do regime militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014. SCHWARZ, Roberto. Cultura e Política, 1964-1969. In O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

Teatro e literatura: obras de resistência pós-64

 “Um teatro, uma literatura, uma expressão artística que não fale de seu próprio tempo não tem relevância.” (Dario Fo) Abajur lilás Mui...